O maior desafio dessa experiência, para mim, é manter a vibração alta. São muitos os motivos para o desespero. A energia está pesada e viver se tornou difícil; manter o equilíbrio, desafiador. Daí a responsabilidade de manter alta nossa frequência energética. É necessário ao mundo e importante pra gente. 

A quarentena tem sido tempo de regenerar. Que é, por sinal, o termo que me guia nesses meses. O planeta pede regeneração. Não dá mais para vivermos como antes. Em todos os sentidos. É preciso ressignificar a vida de dentro pra fora. A partir de nós. Saber que cada ação tem uma reação e que a reação vem em cadeia e pode afetar o mundo todo. Olha o que estamos passando. Mas a vida é aprendizado e a dor faz parte do crescer. Quando tudo são flores, nada se transforma. _O que é ótimo, não dá para se transformar sempre. Transformação exige atenção e mergulho profundo, e é delicioso estar na superfície. Mas para nos sentirmos seguros ali precisamos saber até onde dá pé. 

Quando estive tão presente aqui e agora sem qualquer expectativa quanto ao futuro? Não lembro. No dia a dia até outro dia normal, a noção da presença não se fazia tão nítida. Já tinha consciência da impermanência da vida, de que esta é cíclica e que ciclos terminam, mas percebo que era então um entendimento filosófico. Faltava-me a prática. E não poderíamos ser levados a imersão prática mais intensa do que a atual no que concerne à compreensão da impermanência da vida. A impossibilidade de qualquer planejamento nos faz sentir fisicamente o presente como a única certeza de que dispomos além da morte, esta escancarada. Ambas seminais ao conceito de impermanência. 

A vida é esse lapso no espaço tempo que se dá no instante presente em que se passa. É o que sentimos e a forma como sentimos cada experiência no momento em que ela acontece. Depois, elucubra-se, reflete-se, mas já é passado. E se perdemos esse tempo presente que nos oferece prazeres e aprendizados pensando sobre o que vem depois, o que teremos feito quando olharmos para trás? 

A acachapante realidade de não se poder criar expectativas gera medo. Mas o medo pode libertar, pois ao se fazer consciente indica os caminhos para superá-lo.  Entender de onde vêm e por que vêm é se conhecer, é olhar para as próprias sombras e acolhê-las. Saber até onde a profundeza de si dá pé e onde será preciso mergulhar. O medo também pode dar coragem, agir como força motriz da energia necessária a se lidar com o que assusta. E superar. Ultimamente, o medo também tem me gerado uma gratidão profunda_ e aqui uso gratidão consciente do significante um tanto cafona que se associou à palavra_ pela possibilidade estar presente. De estar segura, saudável. De estar em casa. Dói pensar nos que não podem, e a estes o melhor que sinto poder fazer é, voltando ao início desta reflexão, manter alta minha vibração. É colaborar para que a frequência do planeta terra mantenha seu equilíbrio. Tem muita gente vibrando na dor. É urgente vibrar no amor. Isso muda o curso de tudo. _ Sim, eu sei que há diversos fatores socioeconômicos em jogo e que mudar o curso da história depende de uma conjunção de todos eles, incluindo o energético. Mas deixo essa reflexão para outro texto.

Vejo essa frequência vibrando em muitos lugares, e isso me dá esperança, esta que é virtude questionada como tal mas, sim, o é, como LVB outro dia brilhantemente concluiu. A esperança é crucial para se passar pelos momentos difíceis. É preciso confiar em si e nas redes que se teceram na vida e ter esperança no que foge ao controle. Normalmente funciona. E as redes ajudam, o quão mais saudáveis forem as redes que se construíram, mais plenitude se sente. Tenho pensado muito sobre as minhas redes, meus amigos, os mais chegados e os nem tanto, mas não por isso menos queridos, a minha bolha no melhor sentido do termo, conhecida de quem me conhece ou me encontrou no carnaval. Estou morrendo de saudades das pessoas que eu gosto. Mas é uma saudade tão boa, que preenche, faz sorrir. Dá uma certa sensação de completude, uma certa certeza de ter feito boas escolhas até aqui. E uma vontade louca de manifestar essa saudade, de expressar o que eu sinto, ser honesta e amorosa comigo e com os outros. Quando a morte se faz tão presente, verdadeiramente notamos a potência da vida. Isso muda a perspectiva. É tão bonito ver tanta gente ao redor vivendo a mesma coisa ao mesmo tempo. É duro, mas estamos nos regenerando. E regenerar dói.

Minha rotina tem sido um carrossel de emoções. Meus desejos e humores oscilam entre polos internos antagônicos, que acabam sempre buscando um balanço harmônico, mas no processo às vezes me levam às profundezas da ansiedade. É muito louco. Sinto como se caminhasse numa corda bamba no alto do infinito com a consciência de que a única forma de atravessá-la é mantendo o equilíbrio. E eu vira e mexe quase caio. A volta costuma ser boa, faz sentir aquela força de saber-se capaz de se reerguer. E nesses momentos só me vem à mente a compreensão da presença. É tudo equilíbrio e equilíbrio requer presença.  Qualquer descuido com o aqui e agora pode ser fatal. Mais do que nunca, certamente para todas as gerações que não viveram as guerras, literal e subjetivamente. Para essa maior parte da sociedade, faz-se mais clara do que nunca a noção de que a desatenção ao hoje acaba por anular a esperança no amanhã. E nós estávamos, como sociedade, demasiado desatentos. 

Creio que nos falta um pacto geral de cuidado. Cuidado consigo e com o mundo. Cuidar de si para poder cuidar do outro. Com gentileza, com respeito, certamente também com críticas. Mas com leveza. A vida já nos impõe durezas diversas. Se pensamos na onipresença da dor e do sofrimento, e é impossível não o fazer, tendemos a nos desesperar. Mas desespero nunca ajudou a resolver nada. É preciso calma, cuidado. É preciso saber separar as gavetas para não embolar o arquivo. Responsabilizar-se pelo auto cuidado é um bom começo. Emanar e atrair frequências mais altas materializa a expansão do campo de energia terrestre. E isso é física, não é misticismo. É o mutualismo necessário ao processo de regeneração da gigantesca fonte de vida que habitamos e insistimos em destruir. O Álcio, meu terapeuta, sempre me disse que o melhor jeito de ajudar a  resolver o mundo é resolvendo-se a si mesmo. É por aí. Se não se nutre a própria terra, como esperar que dela gerem frutos? 

 

Anna Luiza Cardoso, a.k.a @beibebife, 32, agente literária na @vbmlitag